Doenças que mais matam no mundo hoje

O que mudou até 2023 e o que está por trás das principais causas de morte. Base principal: Global Burden of Disease Study 2023 (GBD 2023)

RESENHAS CIENTÍFICAS

Yves Nascimento Tojal

1/3/202611 min read

selective focus photography of heart organ illustration
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Introdução e contexto

Quando falamos em “doenças que mais matam”, é tentador pensar apenas em uma lista de nomes. Mas, para a Saúde Pública (e para a Nutrição), a pergunta mais útil é dupla: (1) quais são as maiores causas de morte hoje e (2) quais fatores — especialmente os modificáveis — empurram essas mortes para cima.

Nesta resenha, usamos o Global Burden of Disease Study 2023 (GBD 2023), um dos maiores esforços globais de estimativa de mortalidade e carga de doença. O GBD reanalisa séries históricas e integra múltiplas fontes (registros de óbito, estudos e modelos), trazendo estimativas comparáveis entre países e ao longo do tempo (GBD 2023 CAUSES OF DEATH COLLABORATORS, 2025).

Objetivo

Resumir, de forma prática e com rigor, (a) as principais causas globais de morte em 2023 e (b) os principais fatores de risco associados à carga global de doença, com ênfase em fatores relevantes para Nutrição.

Métodos

Tipo de evidência: análise sistemática e modelagem do GBD 2023, com estimativas anuais (1990–2023) para 292 causas de morte em 204 países e territórios.
Medidas principais usadas nesta resenha: número de mortes (contagem), taxa de mortalidade padronizada por idade (por 100.000) e idade média ao morrer.
Para discutir determinantes, usamos também o relatório combinado de doenças/lesões e fatores de risco do GBD 2023 (375 doenças/lesões e 88 fatores de risco), que estima a fração da carga (DALYs) atribuível a riscos modificáveis (GBD 2023 DISEASE AND INJURY AND RISK FACTOR COLLABORATORS, 2025).

Resultados

Quantas mortes ocorreram no mundo (e o efeito da pandemia)

O GBD 2023 estimou que as mortes globais (todas as causas) subiram de 47,9 milhões em 1990 para 55,2 milhões em 2019. Durante a pandemia, chegaram a 65,9 milhões em 2021 e recuaram para 60,0 milhões em 2023 (GBD 2023 CAUSES OF DEATH COLLABORATORS, 2025).

Figura 1 — Mortes globais estimadas (milhões), selecionando marcos de 1990 a 2023. Fonte: GBD 2023.
Figura 1 — Mortes globais estimadas (milhões), selecionando marcos de 1990 a 2023. Fonte: GBD 2023.

Ao olhar taxas padronizadas por idade (que ajustam crescimento e envelhecimento da população), houve queda importante: de 1009,0 para 701,5 mortes por 100.000 entre 2000 e 2023 (queda de 30,5%) (GBD 2023 CAUSES OF DEATH COLLABORATORS, 2025).

As 5 principais causas globais de morte em 2023

Em 2023, as cinco principais causas (nível 3 do GBD) foram: doença isquêmica do coração, AVC (stroke), doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), infecções respiratórias inferiores e transtornos neonatais. No mesmo conjunto de estimativas, a COVID-19 caiu do 1º lugar em 2021 para a 20ª causa em 2023 (GBD 2023 CAUSES OF DEATH COLLABORATORS, 2025).

Figura 1 — Mortes globais estimadas (milhões), selecionando marcos de 1990 a 2023. Fonte: GBD 2023.

Tabela 1 — Top 5 causas globais de morte em 2023 (ranking; nível 3 do GBD)
Tabela 1 — Top 5 causas globais de morte em 2023 (ranking; nível 3 do GBD)

Duas líderes antigas, mas com taxas menores

Embora a doença isquêmica do coração e o AVC permaneçam em 1º e 2º lugar (como em 1990), as taxas de mortalidade padronizadas por idade caíram: doença isquêmica do coração de 161,4 para 99,8 por 100.000 (1990→2023) e AVC de 157,2 para 75,9 por 100.000 (1990→2023) (GBD 2023 CAUSES OF DEATH COLLABORATORS, 2025).

Figura 2 — Taxas de mortalidade padronizadas por idade (por 100.000) em 1990 vs 2023 para as duas pr
Figura 2 — Taxas de mortalidade padronizadas por idade (por 100.000) em 1990 vs 2023 para as duas pr

Figura 2 — Taxas de mortalidade padronizadas por idade (por 100.000) em 1990 vs 2023 para as duas principais causas: doença isquêmica do coração e AVC. Fonte: GBD 2023.

Morremos mais tarde: a idade média ao morrer aumentou

Globalmente, a idade média ao morrer (todas as causas, ambos os sexos) aumentou de 46,8 anos em 1990 para 63,4 anos em 2023. Em 2023, a média foi 61,2 anos para homens e 65,9 anos para mulheres (GBD 2023 CAUSES OF DEATH COLLABORATORS, 2025).

Figura 3 — Idade média ao morrer (anos) em 1990 vs 2023, por sexo e no total. Fonte: GBD 2023.

O que está por trás das mortes: causas-raiz e riscos modificáveis

“Causa de morte” é o que aparece no atestado (ex.: infarto, AVC). Já “causas-raiz” são os fatores que aumentam a chance de essas causas ocorrerem (ex.: pressão alta, tabagismo, dieta inadequada, poluição).

Quase metade da carga global em 2023 é atribuível a riscos

No GBD 2023, a carga total global em 2023 foi estimada em 2,80 bilhões de DALYs (anos de vida ajustados por incapacidade). Desses, cerca de 1,27 bilhão (≈50%) foi atribuível aos 88 fatores de risco analisados (GBD 2023 DISEASE AND INJURY AND RISK FACTOR COLLABORATORS, 2025).

Figura 4 — DALYs totais em 2023 e parcela atribuível a 88 riscos modificáveis analisados. Fonte: GBD
Figura 4 — DALYs totais em 2023 e parcela atribuível a 88 riscos modificáveis analisados. Fonte: GBD

Figura 4 — DALYs totais em 2023 e parcela atribuível a 88 riscos modificáveis analisados. Fonte: GBD 2023.

Principais riscos em 2023

Os cinco fatores de risco (nível 3) que mais contribuíram para a carga global atribuível a riscos em 2023 foram: pressão arterial sistólica elevada, poluição por material particulado, glicemia de jejum elevada, tabagismo e baixo peso ao nascer/curta gestação. A pressão alta sozinha respondeu por 8,4% da carga total (DALYs) (GBD 2023 DISEASE AND INJURY AND RISK FACTOR COLLABORATORS, 2025).

Como isso conversa com Nutrição? Muitos desses riscos têm componentes metabólicos e comportamentais que dialogam com alimentação e estilo de vida. A OMS destaca que fatores modificáveis para hipertensão incluem dietas não saudáveis (especialmente excesso de sal, gorduras saturadas e trans e baixa ingestão de frutas e vegetais), inatividade física, tabaco e excesso de peso (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2025b).

Top 5 causas de carga (DALYs) em 2023

Além de mortes, o GBD mede carga total (morte + incapacidade). Em 2023, as 5 principais causas globais de DALYs foram: doença isquêmica do coração (193 milhões), transtornos neonatais (170 milhões), AVC (157 milhões), infecções respiratórias inferiores (98,7 milhões) e diabetes (90,2 milhões) (GBD 2023 DISEASE AND INJURY AND RISK FACTOR COLLABORATORS, 2025).

Figura 5 — Top 5 causas globais de DALYs (milhões) em 2023. Fonte: GBD 2023.

Interpretação prática

O recado do conjunto de dados é direto: o mundo está envelhecendo e as doenças crônicas (especialmente cardiovasculares) continuam dominando a mortalidade — mas grande parte da carga está associada a riscos que podem ser reduzidos em nível populacional.

Em termos de hábitos e políticas, três pontos costumam ter alta relação com Nutrição e saúde cardiometabólica:

· Pressão arterial: é o principal risco global de carga atribuível (GBD 2023). Em nível populacional, reduzir o consumo de sódio é uma estratégia-chave; a OMS recomenda menos de 2000 mg/dia de sódio (≈5 g/dia de sal) para adultos (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2025a).

· Glicemia e peso corporal: glicemia de jejum elevada e IMC elevado estão entre os riscos relevantes em 2023 (GBD 2023). Estratégias de alimentação e atividade física que favoreçam equilíbrio energético e qualidade alimentar tendem a atuar nesses eixos.

· Tabaco e ambiente: tabagismo e poluição por material particulado seguem entre os maiores determinantes globais (GBD 2023), reforçando que saúde não é só “decisão individual”: depende de ambiente, legislação e acesso.

Onde a nutrição entra: como alimentação influencia riscos e mortalidade

O GBD 2023 mostra que quase metade da carga global de doença (DALYs) em 2023 foi atribuível a riscos modificáveis — e, entre os maiores, destacam-se riscos metabólicos como pressão arterial elevada e glicemia elevada. Esses riscos estão ligados, direta ou indiretamente, a padrões alimentares (qualidade da dieta, consumo de ultraprocessados, sódio, gorduras e fibras), além de fatores como tabagismo e poluição. Ou seja: quando falamos das doenças que mais matam (especialmente cardiovasculares), falar de prevenção sem falar de alimentação deixa o quadro incompleto (GBD 2023 DISEASE AND INJURY AND RISK FACTOR COLLABORATORS, 2025).

Abaixo estão caminhos bem estabelecidos pelos quais a nutrição pode reduzir riscos populacionais — sem “dieta milagrosa”, e sem substituir acompanhamento individual:

· Pressão arterial (hipertensão): o principal risco global em 2023 foi a pressão sistólica alta (8,4% do total de DALYs). Em nível populacional, uma das medidas mais custo-efetivas é reduzir o sódio: a OMS aponta consumo médio global elevado e recomenda menos de 2000 mg/dia de sódio, associando excesso a aumento de pressão e maior risco de DCV, além de estimar 1,89 milhão de mortes/ano relacionadas ao consumo excessivo (GBD 2023 DISEASE AND INJURY AND RISK FACTOR COLLABORATORS, 2025; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2025a).

· Gorduras e perfil lipídico (LDL): escolhas de gordura alimentar importam. A OMS recomenda reduzir gorduras trans e limitar gorduras saturadas, com ênfase em substituição por gorduras insaturadas. A própria OMS estima centenas de milhares de mortes anuais atribuíveis ao consumo de gorduras trans industrializadas (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2024; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).

· Glicemia e peso corporal (diabetes/obesidade): glicemia de jejum alta está entre os maiores riscos globais, e o excesso de peso (IMC alto) foi um dos riscos com aumento de taxas atribuíveis no período recente. Padrões alimentares com maior densidade de fibras (frutas, verduras, leguminosas e grãos integrais) e menor predominância de ultraprocessados tendem a favorecer controle de peso e marcadores metabólicos, o que é coerente com recomendações de saúde pública (GBD 2023 DISEASE AND INJURY AND RISK FACTOR COLLABORATORS, 2025; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).

· Doenças infecciosas e saúde materno-infantil: embora as principais causas globais em adultos sejam NCDs, condições neonatais e infecções respiratórias ainda têm peso relevante em carga de doença. Nutrição adequada no início da vida (incluindo práticas como aleitamento e alimentação complementar apropriada) faz parte do conjunto de ações que reduz risco de desfechos adversos ao longo do ciclo de vida (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2020).

Na prática, o papel da Nutrição em saúde pública é duplo: (1) apoiar mudanças individuais possíveis e sustentáveis (educação alimentar, planejamento, habilidades culinárias) e (2) defender ambientes alimentares mais saudáveis (rotulagem, reformulação, redução de sódio e trans, acesso a alimentos in natura), que têm impacto amplo e mensurável.

Figura 6 — Top 5 fatores de risco globais por parcela de DALYs em 2023 (percentual do total). Fonte:
Figura 6 — Top 5 fatores de risco globais por parcela de DALYs em 2023 (percentual do total). Fonte:

Figura 6 — Top 5 fatores de risco globais por parcela de DALYs em 2023 (percentual do total). Fonte: elaborado pelo Nutro AI com base em GBD 2023 Disease and Injury and Risk Factor Collaborators (2025).

Importante: o fato de a nutrição influenciar riscos (como pressão, lipídios, glicemia e peso) não significa que uma única mudança resolva tudo. O efeito real depende do contexto (idade, renda, acesso, cultura alimentar, comorbidades) e, para pessoas com condições clínicas, deve ser individualizado com profissional habilitado.

Limitações importantes

· Estimativas e modelos: o GBD integra dados e modelos (ex.: CODEm), o que melhora comparabilidade, mas ainda depende da qualidade e disponibilidade dos registros de óbito.

· Incerteza: resultados vêm com intervalos de incerteza (UI) — especialmente relevantes para países com sistemas de informação mais frágeis.

· Ranking não é tudo: uma causa pode subir no ranking por envelhecimento populacional mesmo com queda na taxa padronizada por idade.

· Níveis hierárquicos: “nível 3” do GBD agrega subcausas; isso pode esconder diferenças importantes dentro de um mesmo grupo.

· Causalidade: fatores de risco são estimados por modelos de atribuição (PAF) e evidência epidemiológica; isso não substitui ensaios clínicos para intervenções específicas.

Conclusão

Em 2023, doença isquêmica do coração e AVC seguem como as maiores causas globais de morte, acompanhadas por DPOC, infecções respiratórias inferiores e transtornos neonatais. Ao mesmo tempo, as taxas padronizadas por idade para as duas líderes caíram desde 1990 e a idade média ao morrer aumentou — sinais de avanço, ainda que desigual. A principal oportunidade está nas “causas-raiz”: quase metade da carga global de doença é atribuível a riscos modificáveis, com destaque para pressão arterial elevada, poluição, glicemia elevada e tabagismo (GBD 2023).

Aviso educacional

Este conteúdo tem finalidade educativa e informativa. Não substitui consulta individual com profissional de saúde e não constitui prescrição de dieta ou tratamento.

Transparência

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SELO NUTRO AI

• Nível de evidência: Alto (grande estudo global, método padronizado e reanálise de séries históricas).

• Para quem se aplica: público geral, com utilidade especial para comunicação em saúde e prevenção cardiometabólica.

• Principais limitações: estimativas modeladas; dependência de qualidade de registros; incerteza em locais com poucos dados; ranking influenciado por envelhecimento; risco-attributable não prova causalidade individual.

• Score Nutro AI: 92/100 — alta robustez e relevância, com limitações inerentes a modelos globais.

Linha do Banco de Evidências

Mortalidade global 2023 | causas de morte; GBD 2023; leading causes of death | Top causas de morte (1990–2023) | GBD 2023 Causes of Death Collaborators/2025 | Análise sistemática/modelagem (GBD) | N=204 países | P=população global | I/E=exposição a causas (não aplicável) | C=— | O=mortes; taxas padronizadas; idade média ao morrer | Efeito: mortes globais 60,0 mi (2023); IHD 99,8/100k; AVC 75,9/100k (2023) | Limitações: modelagem; qualidade de dados; incerteza | COI/Financiamento: fundadores sem papel no desenho/execução | DOI:10.1016/S0140-6736(25)01917-8; PMID:41092928 | Score 92 | Status: publicado | Assets: 5 gráficos + tabela

Referências

GBD 2023 CAUSES OF DEATH COLLABORATORS. Global burden of 292 causes of death in 204 countries and territories and 660 subnational locations, 1990–2023: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. The Lancet, v. 406, n. 10513, p. 1811–1872, 18 out. 2025. DOI: 10.1016/S0140-6736(25)01917-8. PMCID: PMC12535838. PMID: 41092928.

GBD 2023 DISEASE AND INJURY AND RISK FACTOR COLLABORATORS. Burden of 375 diseases and injuries, risk-attributable burden of 88 risk factors, and healthy life expectancy in 204 countries and territories, including 660 subnational locations, 1990–2023: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. The Lancet, v. 406, n. 10513, p. 1873–1922, 18 out. 2025. DOI: 10.1016/S0140-6736(25)01637-X. PMCID: PMC12535840. PMID: 41092926.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Healthy diet. 2020. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/healthy-diet. Acesso em: 3 jan. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Trans fat. 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/trans-fat. Acesso em: 3 jan. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Sodium reduction. 2025a. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/sodium-reduction. Acesso em: 3 jan. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Hypertension. 2025b. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/hypertension. Acesso em: 3 jan. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Cardiovascular diseases (CVDs). 2025c. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/cardiovascular-diseases-%28cvds%29. Acesso em: 3 jan. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. The top 10 causes of death. 2024. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/the-top-10-causes-of-death. Acesso em: 3 jan. 2026.